Cuidar de quem cuidou de nós

Dados anteriores à pandemia de covid-19 mostram que 10% dos portugueses não compram os medicamentos que lhes foram receitados: não têm dinheiro. Diz o INE que o número de jovens descerá de 1 milhão e 400 mil para apenas 1 milhão; o número de pessoas com mais de 65 anos subirá de 2,2 milhões para 3 milhões. E ainda prevê que o índice de envelhecimento quase duplicará, passando de 159 para 300 o número de idosos por cada 100 jovens (em 1961, a proporção era de 27 idosos por cada 100 jovens).

Parte destes números explica-se pelo aumento da longevidade e pelo decréscimo da natalidade. Também se explica pela estagnação da nossa economia e por um nível de ensino superior que não tem correspondência no mercado laboral; como também pelo aproveitamento da abertura europeia das fronteiras, dando aos mais jovens a oportunidade de encontrar economias mais ricas e desenvolvidas, onde os Estados e as empresas procuram especialistas, sobretudo em áreas técnicas, e podem pagar salários mais aproximados aos altos graus de instrução.

Esta realidade já hoje exerce uma pressão visível na maneira como Portugal procura ajustar a convivência entre as gerações. À medida que o país caminha em direcção a estes números, é possível prever grandes mudanças sociais. Tentaremos antever modos de lidar com elas, amparando os mais velhos, canalizando recursos e conhecimento para dar dignidade e autonomia aos últimos anos dos nossos semelhantes. É um imperativo de afecto e de civilização.

Até há uns anos, uma ou talvez duas décadas, era entendido que os pais envelhecidos simplesmente continuariam a viver nas suas próprias casas, apoiados por um ou mais dos filhos que tinham criado. No Portugal contemporâneo, por contraste, a doença e a idade avançada passaram de ser uma responsabilidade multigeracional para uma organização mais ou menos pública ou privada, vivida largamente em solidão ou com a ajuda de médicos e instituições.

Esta mudança da maneira tradicional de lidar com o envelhecimento tem as suas razões: agora há menos jovens e mais pessoas idosas; as famílias precisam dos rendimentos do trabalho de marido e mulher quando, antigamente, um dos membros do casal cuidava dos pais ou avós em casa; e as famílias, com a nova mobilidade e os novos mercados laborais, podem não viver na mesma região e muito menos na mesma vila ou cidade. Outro dado impressionante é o do último Censos Sénior da GNR, indicando que existem cerca de 45 mil idosos que vivem sozinhos ou isolados e que perto de 40% da população portuguesa com mais de 65 anos se encontra sozinha durante oito horas ou mais por dia.

A primeira preocupação é a autonomia. O Harvard Grant Study mostra que os mais velhos, quando têm meios financeiros e capacidade física e mental, preferem aquilo a que os cientistas chamam “intimidade à distância”. Mas mesmo esse filão acaba mais cedo ou mais tarde, quando a saúde se torna instável e a memória começa a falhar, e os próprios membros da família não estão preparados para a vulnerabilidade. Neste ponto, o Estado e as famílias, quando podem, tiram os idosos das casas onde sempre viveram e transferem-nos para instituições onde eles perdem referências, a liberdade e o ambiente que conhecem.

Cresci com os meus avós e bisavós, e não me conformo que as coisas tenham de ser forçosamente assim. Há um longo caminho a percorrer na ampliação de uma rede de cuidados continuados e de assistência médica ao domicilio que responda às necessidades da população sénior e lhe permita continuar a viver nas suas casas; na execução do estatuto do cuidador informal para alargar a atribuição de apoios e direitos aos familiares que se dedicam a cuidar dos seus; na criação de programas de envelhecimento activo, que oferecem um sentido de utilidade cívica e que são também uma maneira de prolongar a saúde física e mental, permitindo aos mais velhos sentirem-se autónomos; na coesão do nosso território, para que as famílias não sejam forçosamente obrigadas a separar-se em busca de novas oportunidades; na malha de acompanhamento psicológico para promover a saúde mental; e no combate à pobreza, pela diminuição das desigualdades.

Sei, porque andei pelo país, que há idosos que são confrontados com a escolha desumana entre comprar medicamentos ou comprar alimentos. Na semana passada, o CDS deu-me a alegria de fazer aprovar no Parlamento o vale-farmácia, que paga os medicamentos aos idosos de baixos rendimentos. É o primeiro gesto numa política longa de apoio e dignidade em final de vida. É um gesto minúsculo, mas imprescindível, de uma causa que não abandonarei.

A defesa intransigente da dignidade dos idosos, em especial dos mais desfavorecidos, é um dos meus combates prioritários. Cuidar de quem cuidou de nós não é só um imperativo ético, é também uma questão social premente. Rejeito tratar os idosos como números: são pessoas, com uma dignidade que tem de ser especialmente protegida com a maior dedicação e amor.

A dignidade do indivíduo não está no controlo da hora da morte, como lhe dá a eutanásia. A dignidade do indivíduo está na autonomia e no bem-estar, na possibilidade de ser sempre considerado único e protegido, de sentir que o seu papel na sociedade tem um lugar insubstituível, desde o primeiro até ao último dia.

Francisco Rodrigues dos Santos
Presidente do CDS Partido Popular

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