No CDS, já vivi momentos parecidos

(Título original: CDS. A resposta é muito simples: já vivi momentos parecidos)

Ultrapassada a fase da sobrevivência – que eu pensava concluída em 1995 -, a única coisa boa que o resultado de 2019 deu ao CDS foi tempo para tratar de si. Era preciso saber aproveitá-lo.
Infelizmente, houve quem assim não entendesse. Há quem tenha preferido entrar num exercício autofágico e usar os cargos de que dispõe para não colaborar, denegrir, dizer mal.

Já depois do repto lançado pelo Presidente da República sobre o combate à pandemia no discurso que proferiu quando obteve a maior votação de sempre por parte de uma personalidade de centro-direita em Portugal, houve um dos nossos que, numa manobra claramente premeditada e em companhia dos que se acham “donos do partido”, decidiu ignorá-lo ostensivamente. Foi, portanto, chocado e profundamente indignado que vi gente do meu partido, revelando uma insensibilidade atroz, ignorar todos aqueles que hoje estão a passar pelas mais aflitivas situações.

Sou presidente do Congresso do CDS-PP. Quando aceitei sê-lo, assumi imediatamente que, fossem quais fossem as circunstâncias, deveria ser o seu primeiro defensor. E posso garantir que, comigo, haverá Congresso e que o Congresso que houver obedecerá a todas as regras. Mas haverá Congresso e obedecerá a todas as regras… no tempo certo! E o tempo certo é depois da pandemia (agora que já há vacinas), depois das eleições autárquicas, quando se fecha um ciclo político e se abrirá um novo, depois de concluído o mandato dos órgãos nacionais. Sou institucionalista! Não me resigno, não me conformo.

Por conseguinte, não faço tábua rasa de todos os argumentos que o partido inteiro, a uma só voz, usou para criticar as comemorações do 25 de Abril, do 1.º de Maio, da Festa do Avante!, do Congresso do PCP, todas de 2020. Não os varro para debaixo do tapete!

E quando assistimos aos nossos opositores a querer, todos, um Congresso do CDS nesta altura, mas, ao PS, a adiar o seu Congresso e a Marques Mendes a defender uma clarificação em Congresso para o CDS já, mas – na mesma frase – a achar que o do PSD só deveria ser convocado para depois de terminado o tempo normal, está tudo dito…

Todavia, à total insensibilidade pela situação sanitária e de crise económica e social que se vive em Portugal, poder-se-ia dizer que é, afinal, o partido que importa. Mas, então, em ano de eleições autárquicas, lançar-se uma ofensiva do género da que foi lançada contra a atual direção do partido não é deixar sem chão aqueles que estavam a trabalhar para que o CDS reforçasse posições? Claro que é! Portanto, ao argumento da insensibilidade pode acrescentar-se o do regresso ao mais completo desprezo pelos militantes e pelas estruturas locais do partido, ainda por cima numa manobra materializada pela última pessoa que o poderia fazer.

De facto, depois de ter sido o coordenador e principal autor do programa eleitoral do CDS para 2019, abandonar, num ato de evidente deslealdade, a anterior presidente do partido – ainda por cima para sair para o mundo dos negócios, dando razão a quem alimenta a onda de descontentes com o “sistema”; depois de, desafiado a fazê-lo pelos seus próximos da Iniciativa Liberal, não ter seguido, por exemplo, a têmpera de Basílio Horta, que, em 1991, avançou para a Presidência da República sem pedir licença a ninguém; e, por último, não ter sequer pegado no telefone para falar com o presidente do seu partido para, ao menos, lhe dizer ao que vinha; de facto, como já tantos disseram, era a última pessoa a poder aceitar corporizar a manobra!

E mesmo que Assunção Cristas venha agora dizer que perdoou a deslealdade, que venham militantes, estruturas locais e autarcas dizer que o partido não sofre nada com este tipo de manobras, que se diga que as pessoas, as famílias e as empresas estão imensamente preocupadas com o futuro do CDS e não com os seus familiares, amigos e sobrevivência, cheirará tudo a manobras indecorosas e de inconfessáveis objetivos. É também por isso que é preciso regenerar os partidos em Portugal e é também por isso que é preciso mudar o sistema eleitoral português…

Um Congresso é uma reunião ímpar, a mais participada, representativa e significativa dos partidos democráticos. Reunir hoje o Congresso presencialmente, só à PCP. Reunir à PCP seria renegarmos tudo quanto todos andámos a dizer neste último ano. Reunir em “e-congresso” é renegar o verdadeiro: uma reunião com muitos militantes, em que não só conta o palco, onde se desenvolve espírito gregário e de pertença, onde todos podem falar uns com os outros. Um Congresso, tal como o entendo, é democracia. Assumo, por tudo isto, a minha condição de presidente do Congresso, mas, sobretudo, a de seu provedor. Tenho a obrigação de o defender. É tempo de o proteger.

Martim Borges de Freitas
Presidente do Congresso do CDS-PP

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