A golpada

Em 2016, pela mão de Paulo Portas, Assunção Cristas iniciou o aprofundamento acelerado da transformação do CDS, partido que tradicionalmente representava um eleitorado conservador e democrata-cristão, num partido progressivamente mais liberal.

Numa tentativa de alargamento da sua base eleitoral, relegou para segundo plano a matriz doutrinária e ideológica, assumindo um pragmatismo que muitos acreditaram poderia conduzir o CDS à liderança do Governo de Portugal. O extraordinário resultado eleitoral conseguido nas autárquicas em Lisboa, fenómeno local e irrepetível, com mérito de Assunção Cristas, criou a ilusória expectativa de que, com a promessa de acesso ao poder, o CDS poderia prosseguir uma agenda liberal e progressista, muito elogiada pelos comentadores políticos da esquerda, que permitiria captar novos eleitorados, mantendo simultaneamente o seu eleitorado tradicional.

Esta estratégia dita pragmática, considerada errada por muitos militantes, justificou a emergência da TEM Esperança em Movimento, a primeira corrente de opinião formalizada do CDS, defensora do resgate da democracia-cristã, enquanto fonte doutrinária, modelo e inspiração da organização da sociedade e da intervenção política para Portugal, em contraponto às ideologias de esquerda – comunismo, socialismo e social-democracia -, mas também às correntes libertárias que infiltraram e contaminaram os partidos do centro-esquerda e do centro-direita.

Não sem aviso, sem crítica ou sem oposição, a estratégia foi prosseguida e fortemente penalizada nas eleições Europeias e nas Legislativas de 2019, nas quais o CDS perdeu quase um terço do seu eleitorado, e abrindo espaço para a entrada de dois novos partidos não-socialistas no Parlamento.

Todos quantos estiveram na Direcção Nacional do CDS com Assunção Cristas entre 2016 e 2020, uns política e ideologicamente alinhados, outros ainda que não-alinhados, mas que da política fizeram profissão e dela se tornaram dependentes ou dela procuraram tirar proveito, são os responsáveis pela delapidação do capital político e da credibilidade do partido perante os eleitores. Na verdade, e em bom rigor, a delapidação foi também patrimonial e financeira, negligente senão mesmo dolosa, e ocultada dos órgãos e pelos órgãos nacionais.

O presidente do CDS-PP, Francisco Rodrigues dos Santos, durante a intervenção na sessão de encerramento do 28.º Congresso da CDS/PP, no Parque de Feiras e Exposições de Aveiro, 26 de janeiro de 2020. PAULO NOVAIS/LUSA

A Direcção Nacional de Francisco Rodrigues dos Santos, eleita e composta com o apoio de Filipe Lobo d’Ávila, Abel Matos Santos e da Juventude Popular, emergiu do Congresso de Aveiro como a resposta possível a uma situação muito crítica, que todos os militantes reconheceram como um dos maiores desafios da história do CDS, desde a sua fundação, e que punha em causa a sua relevância política e mesmo a sua sobrevivência.

Indiferentes ao estado do CDS, do país e da governação socialista, os derrotados do Congresso não concederam a Francisco Rodrigues dos Santos um período de tréguas, nem este teve a possibilidade de gozar sequer de um curto período de graça. Em tandem com a extrema-esquerda, vasculharam a vida e enxovalharam um dos seus aliados com inqualificáveis insinuações de extremismo exigindo uma purga, à boa maneira estalinista, que veio a suceder.

Adiaram primeiro, impedindo a sua participação no Congresso de Aveiro, e procuraram condicionar depois, com críticas ferozes e ameaças de guerrilha, que vieram a ser concretizadas, a readmissão de Manuel Monteiro como militante do CDS, que representaria a possibilidade de regresso do partido a uma linha política mais conservadora, soberanista e mais exigente quanto à ética na política, e da retenção de muitos militantes descontentes.

Fragilizado com os ataques iniciais sofridos e pela incapacidade de os repelir sem vacilar, Francisco Rodrigues dos Santos procurou, numa tentativa de apaziguar e congregar, dar sinais de abertura a alguns dos seus mais ferozes críticos, entre os quais António Pires de Lima.

Numa primeira aproximação terá caído numa armadilha por SMS da qual, providencialmente, irá a sair incólume. O governo já admitiu realizar a avaliação ambiental estratégica, que será o primeiro passo para que seja inviabilizado o novo aeroporto no Montijo. Depois, convidou-o a integrar juntamente com outras personalidades o grupo de trabalho para a Recuperação Económica e Social de Portugal, do qual se demitiu três meses depois.

De recordar que este, reconhecido como o mensageiro de Portas, poucos meses antes das legislativas recomendou a Assunção diálogo com o PS, e a Francisco, a propósito de uma expressão crítica às esquerdas, que apurasse a sua cultura democrática. Interpretação minha: a crispação política é má para os negócios.

Apenas dois meses após a eleição de Francisco Rodrigues dos Santos, enquanto a sua equipa procurava controlar danos, surge a pandemia do Covid-19 e toda atenção mediática e as preocupações dos portugueses se centraram na emergência sanitária, relegando para segundo plano o debate político. Em Junho, em condições de segurança sanitária irrepreensíveis, reuniu o Conselho Nacional em Ourém, tendo na ordem de trabalhos a aprovação das contas de 2019. Não houve um único conselheiro eleito pela lista concorrente, que congrega a quase totalidade dos membros da direcção nacional de Assunção Cristas, com assento neste órgão, a justificar, responsabilizar-se ou penitenciar-se pelo estado lastimável em que deixaram o CDS. Nada. Todos se remeteram ao silêncio.

Um eventual resultado desastroso nas eleições regionais nos Açores teria sido pretexto para que pudessem ensaiar uma nova ofensiva contra o Presidente do CDS. O resultado razoável conseguido, dada a circunstância da entrada de dois novos partidos, e o acordo de governo da nova Aliança Democrática (PSD, CDS e PPM), gorou-lhes os planos. Restou-lhes a crítica da linha vermelha que entendem ter sido ultrapassada pelo acordo de incidência parlamentar.

Adolfo Mesquita Nunes, actual vereador na Covilhã, onde tem desenvolvido um trabalho notável, diz-se preocupado com a sobrevivência do seu partido. Essa preocupação é justificada, na medida em que é co-responsável pela situação em que o CDS se encontra.

Enquanto Vice-Presidente do CDS, assistiu à degradação da situação financeira e patrimonial, não tendo estado presente nos Conselhos Nacionais em que foram aprovadas as contas de 2017 e 2018 (recorde-se a polémica venda do terreno do Porto, em vésperas das autárquicas). O mesmo que em 2019, abandonou a vice-presidência, mantendo-se como coordenador do programa eleitoral para as legislativas que foi submetido ao escrutínio popular e conduziu o CDS ao pior resultado desde 1987, levando-o a perder 13 dos 18 deputados que tinha no Parlamento, comprometendo a sua sobrevivência, quer política, quer financeira.

Que CDS propõem para Portugal? Um CDS mais pragmático, disponível para entendimentos com o PS, menos doutrinário e mais liberal, disponível para favorecer a agenda globalista e progressista.

Esta ala liberal e elitista, defensora das “sociedades abertas” e do cosmopolitismo dos interesses, tudo fará para derrubar Francisco Rodrigues dos Santos e impedir que este ou qualquer outro líder conservador ou democrata-cristão seja capaz de ser bem-sucedido, mesmo que para tal tenham que sacrificar o próprio CDS, de que se consideram únicos e legítimos proprietários.

O plano alternativo está traçado. Caso não resulte, o movimento que reúne os liberais do PSD, do CDS e da IL, servir-lhes-á de plataforma para um novo projecto político-partidário.

A golpada indecorosa está em curso.
Em breve veremos os resultados.

Mário Cunha Reis
Engenheiro e gestor
Membro da Comissão Política Nacional do CDS
Membro da Comissão Executiva e Porta-Voz da TEM/CDS

O autor não reconhece o AO 1990.