A desejável recomposição da direita

Parece ser um facto inegável o processo iniciado recentemente com a abertura de novos espaços de representação política, ainda que com expressão eleitoral pouco significativa.

A recomposição da direita é tão desejável quanto necessária a Portugal. Vivemos durante 46 anos numa democracia exígua, que apenas tem permitido a alternância entre o socialismo democrático e a social-democracia, ideologicamente sinónimos, e que, na prática, em pouco ou nada se distinguem, conduzindo invariavelmente a um mesmo resultado: uma economia estruturalmente frágil, excessivamente burocratizada, descapitalizada, fortemente tributada e dependente de subsídios e favores do Estado, que desincentiva a poupança e o investimento, a iniciativa privada, o trabalho honesto, esforçado e formal e o empreendedorismo financiado pelos próprios meios.

O início do processo da recomposição da direita surge pela eleição dos deputados únicos do Chega e da Iniciativa Liberal, que creio corresponder à resposta, para uns, à necessidade de protesto contra um sistema político decadente, que tem demonstrado incapacidade para se reformar, auto-regular e fiscalizar; para outros, à necessidade de trazer para a vida política novas personalidades, quadros técnicos, académicos e empresários, com experiência empresarial e compreensão da economia real, que exponham as debilidades do sistema e combatam a incompetência dos dirigentes políticos e das administrações públicas.

Nada disto é estranho à exaustão fiscal sentida pela maioria dos portugueses, trabalhadores e empresários, nem à entrada anterior de formações políticas populistas à esquerda de natureza radical (marxistas-leninistas, trotskistas, maoistas, anarquistas, libertários e niilistas, através do Bloco de Esquerda, em 1999; e, mais recentemente, animalistas e eco-socialistas, através do PAN, em 2015) que capturaram o Partido Socialista, comandando parte significativa da agenda política, desde a formação da geringonça, em 2015, gerando artificialmente divisões e fomentando tensões sociais, importadas de realidades distintas da nossa, que fazem recordar o período do PREC, de má-memória.

Os dois novos partidos de direita tiveram o mérito de vir desafiar o sistema instalado. Conquistaram o seu espaço comunicacional e, na justa medida, em que os eleitores portugueses começaram a interessar-se pelas suas mensagens impactantes e pelas suas propostas políticas invulgares, que porventura darão voz a muitos descontentes e abstencionistas, os partidos do “centrão dos negócios” – concorrentes, mas sócios – reagem de forma corporativa. Sabemos bem que a partilha dos lugares e do orçamento do sistema é mais fácil de fazer-se a três ou quatro, do que a seis ou sete.

Na economia, a ameaça mais óbvia e radical ao socialismo é o liberalismo, mas, curiosamente, as tensões políticas, com expressão nos media, fazem sentir-se com maior intensidade relativamente ao partido mais populista, sobretudo nas áreas social, cultural, na educação e na segurança.

Uma maior pluralidade de representação das sensibilidades dos eleitores seria, naturalmente, positivo para o todo nacional, e teria certamente um efeito expressivo na redução da abstenção, que é uma preocupação reiterada (mas hipócrita) nas noites de eleições nas últimas décadas.

Contudo, perante a emergência de novos partidos, o que faz o sistema corporativo político e mediático? Procura desqualificar, discriminar, censurar e agora silenciar, dentro e fora do Parlamento.

A redução da frequência dos debates parlamentares, nos quais é feita de forma mais visível a fiscalização da acção do Governo pelo Parlamento, proposto agora pelo maior partido da oposição, com a concordância do partido do governo, e a monitorização do “discurso de ódio” nas redes sociais pelo Governo (!), definição vaga em que caberá de tudo, são sintomas preocupantes da degenerescência das bases do sistema político que, passo-ante-passo, se está a tornar iliberal.

Repito: O sistema político em Portugal está a tornar-se ILIBERAL!

Há que combater as tentações anti-democráticas, como o fez o CDS, de forma irrepreensível, ao defender o direito de intervenção dos novos partidos com deputado único no debate quinzenal (concedido ao PAN na legislatura anterior) e, por estes dias, ao recusar e repudiar o fim dos debates quinzenais, que apenas será útil aos “sócios”, mas não ao esclarecimento do povo.

Há que saber conviver com os novos agentes políticos que partilham espaço na direita democrática, estabelecendo pontes, canais de diálogo, identificando convergências, sem distracções ou querelas fúteis, tal como sucedeu na recente votação do orçamento suplementar, porque o grande desafio para a próxima década é livrar Portugal da corrupção, da incompetência, do socialismo estatista e da influência da esquerda radical na governação do país.

O CDS, partido fundador do actual regime político, tem um papel indispensável na representação política e social no Parlamento. Trata-se do único partido alicerçado no humanismo personalista, como o melhor caminho para combater toda a forma de «exploração e a opressão do homem pelo homem», seja «quando se sente asfixiado pelo aparelho burocrático do Estado», «quando, por qualquer modo, lhe é vedada a liberdade interior, ou a abertura ao transcendente espiritual», «quando a sua vida privada não decorre com a necessária intimidade», «quando é sujeito ao exercício tirânico da autoridade ou a imposições abusivas de minorias activistas» ou «quando a sua consciência de pessoa é abafada pelas massas ou é objecto de manipulações da sociedade de consumo», como se pode ler na sua Declaração de Princípios, publicada em 19 de Julho de 1974.

O CDS Partido Popular, inspirado nas correntes da democracia-cristã europeia, do conservadorismo e do liberalismo económico, plenamente implantado em todo o território nacional, comprometido com o municipalismo e a descentralização de poder, aberto à sociedade, próximo das pessoas, ouvindo e formando autarcas, faz falta a Portugal aos portugueses, e terá um papel fundamental e insubstituível na recomposição da direita portuguesa.

Portugal precisa do CDS!

Mário Cunha Reis
Engenheiro e Gestor
Membro da Comissão Política Nacional do CDS
Membro da Comissão Executiva e Porta-Voz da TEM/CDS

O autor não reconhece o AO 1990.

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