Sente-se a asfixia…

Observo a hera que no fundo do meu jardim abafa a videira que plantei.
Hera que desconheço de onde apareceu, mas, viçosa, prospera.

Observo a glicínia, que, qual anaconda, se entrançou e, entranhando-se, rasgou vincos no loureiro.
Enquanto apreciávamos, distraídos na beleza das suas flores e o verde da sua folhagem, ela, viçosa, prosperava.
Até que o seu tronco se tornou mais espesso que o do loureiro. Esse, que já cá estava, antes de nós próprios, que nos dizemos seus donos.

Loureiro, onde os vizinhos, de uma geração que cada vez mais já não é, vinham buscar as folhas para o tempero. Sempre tinham vindo.
Continuaram a vir enquanto quiseram ou puderam. Agora já não vêm.
Ou porque já não são, ou porque o loureiro, mais frágil e menos frondoso, teve de fugir para as alturas, onde as suas mãos e cada vez mais as minhas já não chegam.

Uma e outra, hera e glicínia, são belas.
Mas a sua beleza tem um preço.
O preço de estarmos atentos, vigilantes.
Para que não se sobreponham ao que voluntariamente escolhemos.
Ao que dá fruto e tempero.

Vivemos em ditadura.
Uma ditadura que se instalou, pérfida e insidiosamente, pegajosa, agarrada ao poder. Iludindo a juventude com os seus verdes e as suas flores do politicamente correcto.

Viçosa, prospera, embalada por uma comunicação social que se ajoelha, se vende. Cujos redatores são formatados em faculdades onde já só se ensina um ponto de vista: o da elite instalada.

No dia 1 de Junho reabriram as salas de espetáculos. Simbolicamente, o Primeiro Ministro António Costa esteve a assistir ao primeiro grande espectáculo do “desconfinamento”.

Lotação definida esgotada.
Duas mil pessoas.
No Campo Pequeno.
A catedral da tauromaquia.

Com o Bruno Nogueira.
Comédia.

No mesmo dia, protagonistas do sector tauromáquico, acorrentaram-se em sinal de protesto, aos portões da praça do Campo Pequeno.
Alvos de uma discriminação inaceitável.
Privados do seu ganha-pão.
Tragédia.

A lei é explícita:

O Decreto-Lei nº 89/2014 define que a “tauromaquia é, nas suas diversas manifestações, parte integrante do património da cultura popular portuguesa”.

De acordo com o nr. 2 do artigo 43º da CRP: “O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”.

O nr. 1 do artigo 73º sublinha que “todos têm direito à educação e à cultura” e os nrs. 1 e 2 do artigo 78º declaram que “todos têm direito à fruição e criação cultural, bem como o dever de preservar, defender e valorizar o património cultural” e “incube ao Estado (…) Promover a salvaguarda e a valorização do património cultural, tornando-o elemento vivificador da identidade cultural comum”.

Qual foi o partido que interpelou o governo a este respeito? O CDS-PP, cujos deputados, Ana Rita Bessa e João Pinho de Almeida quiseram saber porquê e questionaram por escrito a Ministra da Cultura.
Bem!

Começo a sentir o abafamento da hera, o rasgar do tronco das minhas convicções pela glicínia.

Como a videira e o loureiro, poderei vacilar, fraquejar, mas conto permanecer.
Agarrar-me à terra e frutificar. Distribuir.
Tal como eu, assim a tauromaquia.

Hugo Schönenberg de Oliveira
Membro da Comissão Executiva da TEM/CDS