A roupa infantil unissexo e o medo do papão, resposta em carta aberta

Carta aberta a Paula Cosme Pinto

O seu artigo de opinião A roupa infantil unissexo e o medo do papão publicado no Expresso até pode enganar uns quantos, mas não passa no crivo daqueles que sabem o que é a ideologia de género e quais são os seus objectivos.

É por isso que lhe escrevo. Para desmontar as suas proposições com alguns factos, pois, infelizmente, parece que a senhora pensa que quem não alinha no marxismo cultural “tem medo do bicho papão”. Então, vamos por pontos para ficar mais simples:

Ponto 1.

O seu artigo começa assim:

«A Zippy lançou uma linha infantil unissexo e descreveu-a como uma “coleção sem género”. Mas ao que parece, roupa versátil, que pode ser usada por todas as crianças sem distinção, é algo “contranatura”, um “atentado aos valores da família”, uma forma de “erotização infantil” e de “doutrinação para a homossexualidade”. Afinal, o que há de tão errado em meninos e meninas poderem partilhar peças de roupa? Não estará o preconceito nos olhos de quem vê a palavra “género” e não percebe o seu significado?»

Não, o preconceito não está nos olhos de quem vê, mas sim nos factos quem LÊ.

Como muito bem informou o Miguel Macedo:

«Não é preciso a Zippy [empresa] fazer um comunicado oficial, anunciar as medidas ideológicas tomadas e que são influenciadas no vosso design. Basta as pessoas estarem atentas, e compreenderem o que é que “entre linhas” vocês querem fazer. As colecções unissexo (“engarçado” o corrector já não reconhece a palavra…) têm décadas e nunca tiveram um objectivo ideológico. Vamos por pontos:

A colecção chama-se HAPPY // Ungendered Collection (Alegre // Sem género).

No novo texto de apresentação diz o seguinte, cito:

“HAPPY é a materialização da felicidade, que acreditamos que se consegue quando rompemos com ideias pré-concebidas e com o tradicional”.

Colecções unissexo, cara Paula, nunca tiveram qualquer necessidade de romper nada, apenas eram modelos e designs neutros.

“(…) tendo coragem de vestir o nosso próprio “eu” todos os dias.”

O que é que os faz pensar que as pessoas não estão a vestir o seu “eu”? Não é esta a marca da ideologia de género? Cada pessoa nasce um folha em branco e pode criar o seu próprio eu (sexualmente falando) independentemente do sexo com que nasce, ou até do género (leia-se: animal ou humano)?
O eu, é-se. Não se veste.

A colecção da Zippy é inspirada num arco-íris, que – por um mero e enormíssimo acaso – é a bandeira LGBTI.

»

Claro que, como cristã, sei que o movimento LGBTI se aproveitou de um símbolo bíblico (vá-se lá saber porquê) para erguer como bandeira. O arco íris é o símbolo da aliança de Deus com Noé, na qual prometeu não voltar a destruir o mundo pela água.

«O meu arco tenho posto nas nuvens; este será por sinal da aliança entre mim e a terra. E acontecerá que, quando eu trouxer nuvens sobre a terra, aparecerá o arco nas nuvens.»
Génesis 9:13-14

«Aquele que estava assentado era de aspecto semelhante a jaspe e sardônio. Um arco-íris, parecendo uma esmeralda, circundava o trono»
Apocalipse 4:3

Penso que, à luz das reivindicações feministas, os cristãos podem acusar o movimento LGBTQI de apropriação cultural, certo?

Prossegue Miguel Macedo«O lançamento da vossa colecção, é feito no mesmo momento em que as agendas de género – inclusive a do governo que tem investido milhões no seu projecto de “igualdade/identidade de género”, que nada mais é do que uma ideologia de género – está a ser adoptada por muitas empresas, nomeadamente a Sonae, pois garante-lhes bom retorno financeiro.»

Ponto 2.

Quando questiona, com alguma sobranceria:

«Há algum mal em roupa versátil, funcional, colorida, que qualquer menino ou menina pode usar? E que pode passar de criança para criança e ser reutilizada entre irmãos e irmãs, por exemplo? A mim parece-me muito bem.»

Só pode estar a pensar que o povo é todo parvo. A roupa, cara Paula, sempre passou de irmãos para irmãos, sempre houve roupa unissexo, e a nós parece-nos muito bem, mas isso não tem nada a ver com “roupa sem género”, pois tem saias e, certamente, saias não serão usadas por meninos, ou é isso que está a defender?

Ponto 3.

Mas, alega a Paula,

«pelos vistos, há quem considere isto não só uma afronta à biologia, aos valores cristãos e à natureza, como também uma apologia à homossexualidade infantil (wtf?) e um incentivo […] São todos estes exemplos de incentivo à homossexualidade? E a homossexualidade incentiva-se, é isso?.»

Claro que a afronta à biologia não é a roupa unissexo (não sem género) passar de uns para os outros, de rapazes para meninas e de meninas para rapazes. Afronta à biologia, é afirmar que meninos não nascem meninos, meninas não nascem meninas e que uma saia é para ser vestida por ambos, pois não há qualquer diferença entre eles.

E, por favor, não venha com a treta das outras culturas, pois se é de cultura que vamos falar, a nossa, a portuguesa, não contempla que homens vistam saias; nem com a falácia dos padres, pois é um costume milenar da igreja Católica que tem a ver com as vestes dos sacerdotes do Antigo Testamento; nem dos vestidinhos de baptizado, nem das muitas falácias que usa para tentar engabelar os seus leitores quanto à questão da saia ser para meninos e meninas nesta colecção, sem género (não unissexo), da Zippy.

Sim, a homossexualidade incentiva-se quando se erotizam crianças desde a mais tenra idade e se lhes incute que a heterossexualidade é uma imposição do patriarcado machista opressor.

Sim, a homossexualidade incentiva-se quando os guiões de género e cidadania usados para doutrinar as crianças, na escola, são uma verborreia de feministas lésbicas que afirmam coisas como estas:

«A categoria sexual é produto da sociedade heterossexual, que impõe às mulheres a obrigação de reproduzir a espécie, que é o mesmo que dizer: reproduzir a espécie heterossexual.» [1]

«O facto de existir uma sociedade lésbica destrói a construção artificial (social) que constitui as mulheres como um “grupo natural”.» [2]

«Todo o coito heterossexual supõe a violação da mulher por parte do homem.» [3]

«Todos os homens são violadores e é tudo o que eles são. Eles violam-nos com os seus olhos, as suas leis e os seus códigos.» [4]

Sim, a homossexualidade incentiva-se quando se diz a meninos – de 4 anos – que podem namorar com outros meninos e esses meninos chegam a casa a dizer aos pais que querem namorar com outro menino e não com uma menina.

Sim, a disforia de género [transsexualidade] incitiva-se quando se diz a crianças de tenra idade que nasceram meninos, mas podem ser meninas quando quiserem (uma escola em Guimarães). [5]

Ponto 4.

«Mas se preferem diabolizar a questão e associá-la a uma qualquer doutrinação para algo supostamente pecaminoso – que só existe dessa forma porque as vossas cabecinhas estão cheias de preconceitos – tenham atenção às crenças que estão a passar à garotada que vos rodeia. É muito bonito usarem a hashtag #DeixemAsCriançasEmPaz, mas lembrem-se que o preconceito e a deturpação de valores como a tolerância e a dignidade são péssimos exemplos na educação de futuros adultos. Realmente, deixem as crianças em paz, não as condicionem com os vossos medos e repulsa pelo que não se assemelha a vocês.»

Desde quando é que ler os guiões e os autores por detrás deles, perceber a engenharia social que está a ser feita é mais preconceituoso do que acatar, incentivar e até promover os ideólogos de género que escreveram os livros com os quais a Paula concorda?

Desde quando é que ler marxistas e feministas e perceber as suas más intenções é preconceito? [6]

#DeixemAsCriançasEmPaz, é o grito de pais, avós, encarregados de educação, professores e de todas as pessoas que realmente se preocupam com as crianças deste país e com a desconstrução da sua personalidade e sexualidade. Não ignoramos o que o socialismo pretende e não vos facilitaremos a tarefa de destruir a família e o cristianismo.

Medos? Repulsa?

Sim. Temos medo das vossas más intenções travestidas de tolerância, igualdade e inclusão, e repulsa pela forma nojenta como erotizam as crianças, incluindo autistas de 11 anos, como o Desmond (foto) e as usam como bandeira dum movimento intolerante e heterofóbico.

Desmond, autista, 11 anos

Ponto 5.

«a ideologia de género acredita que não existem exclusivamente os géneros masculino ou feminino, ou seja, que o espectro de identidades pode ser mais amplo do que isto e abranger outras realidades existentes sem as colocar no patamar do “anormal”. Isto vai diretamente ao encontro da constatação de que género e sexo não são a mesma coisa.»

Sim. Isso é ideologia de género, ou pedagogia Queer. É isso que dá um pontapé na Biologia e na Ciência. Não há outras identidades, o género humano é binário, mas sim outras formas de as pessoas se relacionarem sexualmente e isso é SEXO. Portanto, quando vos dá jeito, sexo é género e quando não vos convém, sexo não é género!?

Sei do que falo. Não me limitei a fazer um qualquer curso universitário tendencioso, que me doutrina em ideologia de género para eu doutrinar os outros. Não acredito numa engenharia social, composta por pessoas frustradas com a sua sexualidade natural, que se propõe desconstruir milénios de História da humanidade e a própria biologia. Leio os seus construtores, ouço outros que lêem o que eu leio e denuncio essa agenda diabólica (sim, é diabólica e destruidora).

A teoria Queer é a base da Ideologia de Género. É uma “invenção” marxista/feminista que promove a reorientação sexual e a desconstrução da heterossexualidade, ou seja, da família.

É uma teoria sobre o género [sexo], que afirma que a orientação sexual e a identidade sexual, ou de género, dos indivíduos, são resultado de uma construcção social e que, portanto, não existem papéis sexuais essencial ou biologicamente inscritos na natureza humana, mas sim formas socialmente variáveis de desempenhar um ou vários papéis sexuais.

A teoria Queer teve origem nos EUA, nos anos 80, a partir de estudos gays, lésbicos e feministas e alcançou maior notoriedade a partir do fim do século passado, tendo sido fortemente influenciada pelo filósofo francês Michel Foucault, pela sua obra “História da sexualidade”, 1984, e pelo movimento feminista.

Essa teoria visa a desconstrução da heterossexualidade, como algo natural e normal. Para isso, inventou a palavra “heteronormatividade” — que sugere que a heterossexualidade é imposta e normativa — afirma que o género é neutro e que as crianças devem ser criadas sem definição de papéis sexuais, e/ ou sociais, pois, de acordo com a teoria, não há diferença entre os sexos. Assim, a teoria garante que o preconceito entre homens e mulheres devido ao género [sexo] seria destruído. [7]

Como muito bem escreveu o José António Saraiva:

«À mais pequena fuga à ortodoxia do politicamente correcto, um indivíduo é logo apelidado de «homofóbico». E as pessoas acobardam-se. Têm medo de ser enxovalhadas.
Se pensarmos bem, nem um só dos comentadores com presença regular na televisão fala destes assuntos. Até porque, se ‘resvalar’ na opinião e for objecto de ataques por parte desses grupos LGBTQI, arrisca-se a ser despedido e a ficar sem tribuna.
Um deputado do PSD que criticou a propaganda LGBTQI nas escolas noticiada pelo SOL foi logo duramente atacado e sofreu ameaças várias, com a ‘agente’ Joana Mortágua à cabeça a fazer uma queixa à Comissão de Igualdade. […]
Vivemos numa sociedade tolerante – e isso é bom.
Mas a propaganda do politicamente correcto nas escolas e em todos os sectores da sociedade, configurando uma verdadeira lavagem ao cérebro, está a criar uma intolerância de sentido contrário. Que tende a tornar-se totalitária.»
[8]

Termino por aqui a minha resposta ao seu artigo de opinião — marxista e pró-ideologia de género — gritando até que a voz me doa #DeixemAsCriançasEmPaz.

E, sim, boicotarei qualquer empresa que promova a destruição dos valores sobre os quais a nossa sociedade está fundada e estarei muito atenta às que a Secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade de Género mencionou na “Sessão de Esclarecimento” que deu na Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim: GALP, SONAE, LIDL, canais de TV e de rádio…

Maria Helena Costa
Escritora
Membro da TEM/CDS

 

[1] “La Categoria de Sexo”, En el pensamiento heterossexual y otros ensayos. Madrid. Egales, 2010, pág. 26
[2] “No se nace mujer”. Ob. Cit, p 31.
[3] Andrea Dworkin
[4] Marilyn French
[5] Reino Unido vive surto de crianças “transgênero” que contrariam a autoridade dos pais, 27 de Março de 2019
[6] Erotização da infância e a pedofilia como estratégias da nova revolução marxista, Dr. Guilherme Schelb, 26 de Fevereiro de 2018
[7] Identidade de Género, Maria Helena Costa, Ed. Emporium, 2019
[8] Lavagens ao cérebro, José António Saraiva, Jornal Sol, 27 de Março de 2019

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