A ala dura dos conservadores do CDS

por Margarida Davim/Revista Sábado

O PSD é um partido da “direita marxista”, o “25 de Abril procurou e procura destruir Deus”, o Governo ter assinado o Pacto Global para as Migrações da ONU é um ato de “alta traição”. As ideias são defendidas por membros ou simpatizantes de uma tendência oficial do CDS que dá pelo nome Esperança em Movimento. E são só uma amostra daquilo que pensa a ala mais conservadora dos centristas que, na semana passada, chegou à ribalta graças ao texto assumidamente “antifeminista” de um dos seus membros, Joana Bento Rodrigues.

A Tendência Esperança em Movimento (TEM) foi criada há quase dois anos, mas até ao artigo de opinião publicado por Joana Bento Rodrigues no Observador poucos tinham dado por esta corrente de opinião que critica “o marxismo cultural” e a “ideologia de género”, defende “políticas pró-vida” contra o aborto e a eutanásia, quer acabar com a Educação Sexual nas escolas e propõe a criação de um “plano para a saída do euro”.

O porta-voz da TEM é Abel Matos Santos, um sexólogo, que defende o fim da Educação Sexual. “Biologia na escola sim, Educação Sexual não”

Quando apareceu, na primavera de 2017, cinco fundadores davam a cara pelo TEM: o sexólogo Abel Matos Santos, o professor de Ética Luís [Gagliardini] Graça, o engenheiro agrónomo Lopo de Carvalho, o advogado Francisco Alvim e o economista Bernardo Sacadura. Do grupo inicial, restam Abel Matos Santos e Luís [Gagliardini] Graça. (…)

Da primeira vez que a TEM se tentou legalizar, o conselho de jurisdição do CDS mandou para trás o pedido, segundo Abel Matos Santos, “por causa de uma vírgula”. Os problemas formais foram ultrapassados e hoje a TEM possui, de acordo com Matos Santos, “quase 400” militantes inscritos e vários simpatizantes, entre os quais figuras como o professor de Direito Paulo Otero – que numa conferência da tendência acusou o 25 de Abril de “destruir Deus” – e o ex-líder do CDS Manuel Monteiro. No Facebook são 2.700 os seguidores da página daquela que foi a primeira – e até agora a única – tendência oficial do CDS (uma figura criada nos estatutos do partido por Paulo Portas) e são quatro mil os que subscrevem a sua newsletter.

Mas o que é que separa o TEM da liderança de Assunção Cristas?

Abel Matos Santos garante que “na maioria dos temas políticos, da Saúde à Economia” os membros da tendência estão “de acordo” com a direção do partido. As divergências notam-se em pontos como o euro e os costumes.

Assumidamente, “democratas-cristãos”, dizem que não faria sentido estarem em mais nenhum partido, mas divergem de Cristas em temas como as quotas de 40% para mulheres, que consideram ser inconstitucionais e impossíveis de cumprir. “Em algumas freguesias não há sequer mulheres suficientes para cumprir as quotas”, garante Matos Santos, que acha que a polémica em torno do texto de Joana Bento Rodrigues foi boa para lançar a discussão sobre a lei da paridade.

“Queremos discutir tudo sem preconceitos”, diz o porta-voz da tendência, que está contra “o feminismo exacerbado que quer objetificar a mulher” e “o marxismo cultural que quer destruir a família” e que vê nestas posições uma forma de defender os direitos no feminino. “Não pomos em causa a igualdade de direitos ou o princípio do
salário igual ou do voto da mulher. Mas achamos que a mulher (tal como o homem) deve ter a possibilidade de escolher se quer trabalhar fora de casa ou ficar em casa a tratar dos filhos. Eu até acho que o trabalho doméstico devia ser remunerado”, afirma à SÁBADO.

A antifeminista Joana Bento Rodrigues é casada, tem quatro filhos e é médica. Diz que o feminismo “objetifica a mulher, enquanto presa para sexo fácil”

Joana Bento Rodrigues diz-se satisfeita por “dar maior visibilidade à TEM” e assegura que o seu ponto de
vista é partilhado por muitas mulheres “que estão ocupadas com a conciliação harmoniosa da vida profissional e da vida pessoal e familiar, que dedicam pouco ou nenhum tempo às redes sociais e aos media” e que, por isso, estão “silenciadas”.

O que é certo é que só estas posições fizeram com que alguns dirigentes centristas ficassem a saber quem é esta médica ortopedista com especialização em “ombro e cotovelo”, que assinou a crónica no Observador como “militante do CDS”. É que, apesar de tudo, muitos dos membros da TEM são ainda ilustres desconhecidos no partido e Assunção Cristas já deixou claro internamente que não lhes dará os lugares elegíveis nas listas para as legislativas que Abel Matos Santos acreditava serem um direito para uma tendência “que representa tanto no CDS como o partido no País: 10%”.

Para já, o TEM conseguiu apenas uma reunião esta semana com o secretário-geral do partido para definir um “protocolo de colaboração”, tem um lugar na Comissão Política e não precisa de recolher assinaturas
para apresentar moções de estratégia global nos congressos.

One thought on “A ala dura dos conservadores do CDS

  1. Bom artigo. Estamos no caminho certo!
    Não sendo fácil, estou convencido que com a coragem já demonstrada e a ajuda de Deus, havemos de chegar à vitória.

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